Sobre quando eu descobri que era adulta.
Imagino que seja sempre um momento muito pessoal aquele em que você percebe que saiu do mundo em coloridinho da adolescência.
O primeiro porre, a primeira eleição que você vota, a primeira aula da auto-escola, a primeira vez que você vai ao motel.. Não sei, de verdade. Acho que vai de cada um.
Se é que todo mundo sente essa passagem. Às vezes, quando você se dá conta, já tá cheia de si com as responsabilidades do seu primeiro emprego e com a calça social emprestada da sua mãe. Nem percebe. Afinal, era tão natural que um dia você chegasse ali.
Achei que fosse ser assim comigo também, porque depois de sair de casa, começar a organizar as contas pra pagar e ter obrigações que antes não se tinha, a gente não vai se sentindo exatamente com dezesseis anos.
Mas certeza, certeza mesmo de maturidade, eu só tive com o baque seco que foi a morte da Má.
Depois de 19 de Junho do ano passado, eu caí de cara no concreto duro da vida adulta.
Já faz um ano desde aquele telefonema horrível no meu último dia de provas finais. Eu ia pro bar.
Depois, do caminho até à rodoviária, me parece que foi um longo período de inércia.
A viagem até o interior também foi muito longa. O velório foi gelado, empestiado daquele cheiro fúnebre que só as rosas têm, e foi triste ver todos os companheiros de tantos churrascos do terceiro colegial reunidos ali.
Mas nada foi mais longo e confuso quanto aquelas férias…
A verdade é que, com ela, não morreu apenas uma amiga de infância, e sim, um pedaço de mim. Meu pedaço do segundo colegial que acordava cedo reclamando pra ir aos simulados. O pedaço que contava o dinheiro pra caipirinha de sábado. O pedaço que jogava forca no cursinho. Que tatuou com henna uns símbolos chineses bregas na viagem de formatura.
A cidade ficou estranha, e por muito tempo me senti deslocada na minha própria casa, nas ruas amareladas de sol e, de certa forma, dentro de mim mesma.
Tudo lembrava aquele tempo bom e despreocupado, que sempre parecia a um ônibus de distância, tangível pra eu pegar de volta quando eu quisesse, especialmente nos dias em que eu odiava amargamente São Paulo, amaldiçoando os trabalhos da faculdade e choramingando com saudade das roupas de cama cheirando a amaciante da casa da minha mãe.
Mas depois que ela morreu, nada mais foi assim.
Nada tinha realmente mudado: a fachada do colégio ainda era a mesma, os barzinhos que a gente gostava ainda têm as mesmas mesinhas na calçada, o lugar onde a gente comprava salgado no intervalo, ainda é meio porco.
Mas nada era mais o mesmo.
E então eu percebi. Ganhei esse horrível senso de finitude abrupta e uma ocasional falta de ar quando passo de carro, num domingo vazio, em frente à casa dela. Eu sei que nunca mais vou conseguir entrar lá. E isso é tão triste.
É claro que talvez eu esteja errada. Talvez eu descubra que ainda não sou adulta, mas só uma menina triste.
Mas hoje eu entendo que meu passado feliz foi embora, e que pra ele, não tem viagem de volta pra minha infância alegre e pro meu colegial divertido quando eu estiver de saco cheio do meu presente. As pessoas que cresceram comigo hoje estão longe, seguindo suas vidas, e eu também, como deveria ser.
Mas, em momentos como esse, isso não parece tão certo assim.
E sobre a Má… bem, eu odeio quando as pessoas usam aqueles clichês idiotas pra descreverem as pessoas depois que elas morrem, dizendo que fulano era um anjo de candura, nunca fez mal à uma mosca, nada de errado, aquelas lembranças falsas e irreais que nunca refletem a verdade.
A Má não era perfeita. Ela sempre aumentava as histórias, era exagerada, enrolada pra sair com a gente.
Falava mal daquela menina metida junto com a gente no intervalo do cursinho, nunca espalhava o corretivo nas espinhas direito e arrumava a franja tão compulsivamente que a vontade que dava era de prender as duas mãos dela pra ver se a criatura sossegava.
E era linda. Ridiculamente divertida. E sempre que me via, gritava a um quilômetro de distância na boate. E eu ainda me lembro da voz rouca dela quando ela fazia isso.
Era minha amiga. E é assim que eu me lembro dela, com todas as besteiras e maravilhas.
Especialmente hoje, no dia do seu aniversário.
Parabéns, Má. Onde quer que você esteja.








Bom, tá, tudo bem, sou durona e chocolates fofos não me impressionam.




